Brasília já foi referência no ensino público
Modelo a ser seguido em todo o país, as Escolas Parque foram criadas para tornar o aprendizado mais divertido. Democráticos, os colégios reuniam filhos de ministros e de operários.
Brasília foi mesmo criada para ser diferente. As escolas públicas deveriam ser exemplo para o país, com funções bem mais amplas que as tradicionais. Falta de investimentos, aumento do número de alunos e a violência mudaram o perfil de muitos colégios nestes 50 anos, mas o ensino público daqui ainda é referência com estímulo ao pensamento crítico e à criatividade. Uma história de mais de 50 anos contada por crianças de 10. Brasília se revela em poemas, textos e desenhos e se mostra encantadora pelos mais diversos motivos. “A Catedral. Primeiro por causa da parede, que a gente fala de um lado e a pessoa que está lá do outro lado escuta. Segundo, porque é uma igreja muito bonita. Eu acho que nenhuma igreja no mundo tem aquele formato”, diz Lígia Coutinho de Freitas, 10 anos. A lição sobre a nova capital virou livro dos alunos da 4ª série da Escola Classe da 415 Norte. “No processo de construção de Brasília eles incorporam isso e, com certeza, serão cidadãos mais dedicados à preservação da cidade”, destaca a diretora da Escola Classe da 415 Norte, Nailda Rocha. Uma cidade que foi exemplo de excelência no ensino público. Das ideias do educador Anísio Teixeira surgiram as escolas que ensinavam a pensar e eram, acima de tudo, democráticas, com filhos de ministros e filhos de operários estudando juntos. “Você vai melhorando, se renovando, se envolvendo, evoluindo a partir das sucessivas experimentações. Então, não à toa que aqui foram realizadas experiências no campo da educação”, lembra Carlos Augusto Medeiros, da Faculdade de Educação da UnB. É escola porque é um lugar para aprender. É parque porque é um lugar para se divertir. Logo no nome a Escola Parque de Brasília deixa claro o seu conceito de ensino: a aprendizagem não tem que ser chata. A aventura do conhecimento pode ser uma experiência inesquecível. “A Escola Parque era um sonho. Era uma escola de artes e de música. É um lugar bonito. Está lá no meio da 308. E lá a gente fazia coral, fazia aula de desenho e pintura”, lembra a cantora Zélia Duncan. A escola, por onde passaram famosos, continua lapidando talentos e oferecendo o que há de melhor para os alunos. Mas nem todo o sistema continuou com o padrão da década de 70. José Camilo foi aluno da primeira turma do Elefante Branco e hoje trabalha como assistente pedagógico da escola. Ele lamenta pelos rumos da educação em Brasília. “Ela não é respeitada, quer pelo poder público, quer pela sociedade. Não respeitam a escola pública. Eles pensam que a escola pública tem a responsabilidade de cuidar dos filhos, que é um depósito de pessoas. Não é”, destaca José Camilo da Silva. Mas quem sabe aproveitar o que a escola tem de bom, colhe os frutos. Alysson Lopes sempre estudou na rede pública e acaba de ficar entre os melhores colocados nas Olimpíadas de Matemática, que reuniram milhares de alunos de todo o país. “Eu acho que não há diferença entre a escola pública e a particular. O que importa é o aluno, é como ele trabalha para alcançar o que ele quer”, avalia Alysson Caio Lopes, de 13 anos. “É para este tipo de aluno que a gente encontra forças para fazer um trabalho melhor, para trabalhar bacana. É isso que faz a gente levantar todo dia e falar assim: ‘hoje eu vou fazer uma aula bacana, vou cumprir a minha missão’. Apesar da falta de material, das dificuldades que a gente encontra. Isso é uma satisfação que não tem preço”, afirma a professora Patrícia Michele.